Estudo da FMUSP aponta relação da obesidade com 14 tipos de câncer

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Estudo inédito feito no Brasil confirma a associação da obesidade e o excesso de peso com 14 tipos de câncer: mama na pós-menopausa, o de cólon e reto, de útero, da vesícula biliar, do rim, fígado, ovário, próstata, mieloma múltiplo (células plasmáticas da medula óssea), esôfago, pâncreas, estômago e tireoide. A pesquisa foi realizada pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), em parceria com a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e com a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os dados sobre obesidade – cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC) – foram obtidos do censo demográfico feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), nos anos de 2002 e 2013, em todos os Estados brasileiros. Em 2002, 40% da população se encontrava com excesso de peso ou com obesidade. Em 2013, este número subiu para aproximadamente 60%.

O IMC avalia o peso em relação à altura. O cálculo indica se a pessoa está ou não dentro do peso ideal para os padrões estabelecidos para uma vida saudável. Estar fora do peso, abaixo ou acima, influencia na saúde, aumentando o risco de várias doenças, como a desnutrição, AVC, infarto e predisposição para o desenvolvimento de câncer.

O excesso de peso e a obesidade se diferenciam de acordo com o grau de acumulação de gordura no corpo. A primeira condição acontece quando a pessoa está entre 10% e 20% acima do peso normal, ou seja, na tabela do IMC, ela pontua entre 25 e 30. Já a obesidade acontece quando o peso está superior a 20% do peso ideal, com IMC igual ou superior a 30.

Pela pesquisa da USP, a maioria dos casos de câncer relacionados com o excesso de peso e obesidade que atingiram mulheres foram o de mama (5 mil), corpo do útero (2 mil) e cólon (700). Nos homens, a incidência maior foi o câncer de cólon (1 mil), de próstata (900) e fígado (650). Os Estados brasileiros com maior número de pessoas com a doença associada ao excesso de peso foram São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. Há uma estimativa de que, em 2012, cerca de 10 mil casos de câncer em mulheres e 5 mil em homens foram atribuídos ao excesso de peso e à obesidade.

Segundo projeções feitas pela IARC, devido ao envelhecimento populacional, existe uma previsão de que o número de novos casos de câncer passe de 430 mil em 2012 para 640 mil em 2025. O estudo da USP mostrou que no período de 2002 a 2013 houve um aumento importante na prevalência de excesso de peso no Brasil, explica Leandro Fórnias Machado de Rezende, um dos pesquisadores envolvidos no trabalho. “[Com base nessas informações] estimamos que aproximadamente 29 mil novos casos de câncer que ocorrerão em 2025 (5% do total de casos) estarão associados ao excesso de peso e à obesidade”, relata.

Segundo Rezende, já se sabia que a obesidade vem aumentando no país. “No entanto, a magnitude de casos de câncer relacionados a esse aumento se mostrou alarmante”, explica. Em breve, caso esse problema não seja enfrentado com a seriedade necessária (como o controle do tabagismo), o excesso de peso será a principal causa de câncer no Brasil, diz o pesquisador. Um IMC maior que 22 já está associado a um risco aumentado para neoplasias malignas.

Prevenção

Na visão dos pesquisadores, alimentação saudável e vida ativa são fatores primordiais para combater a obesidade. Eles ressaltam também a necessidade de haver intervenções e políticas públicas voltadas para a área. Eles citam como exemplo a regulamentação da produção, da venda, do marketing e da rotulagem de alimentos ultraprocessados (macarrão e tempero instantâneos, batata frita pronta, suco de caixinha, refrigerantes, dentre outros).

“Esses alimentos contêm altas taxas de gordura, que prejudicam o organismo e aumentam os riscos de câncer”, afirma a médica Elisabete Almeida.

Em relação à atividade física, Rezende afirma que é necessário se investir em ações como construções de ciclovias, calçadas largas e parques de forma a estimular a população a se engajar em atividades físicas, substituindo, por exemplo, o transporte individual motorizado por deslocamentos a pé ou de bicicleta nos percursos de casa para o trabalho ou para a escola.

“Com a prática do esporte, a reincidência da doença é minimizada em virtude do aumento da resistência física, que influencia na melhora do sistema imunológico para trabalhar no combate ao desenvolvimento de doenças”, explica a Coordenadora Médica do Serviço de Reabilitação do Instituto do Câncer de São Paulo, Christina May Moran.

Um dica é investir pelo menos 30 minutos diários em exercícios físicos. “Essa dedicação diária reduz em 50% o risco de morte por câncer de mama, por exemplo”, diz o Coordenador do Programa Agita São Paulo e diretor-científico do CELAFICS (Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul), Victor Matsudo.

O resultado desta pesquisa foi publicado na revista científica Cancer Epidemiology em março de 2018. O Guia Alimentar para a População Brasileira traz ainda informações detalhadas e relevantes sobre alimentação saudável.

Fonte: Governo de SP